O EXERCÍCIO DIPLOMÁTICO DE OSWALDO ARANHA EM WASHINGTON (1934-1937)

Autor: Henrique Barros


O nome de Oswaldo Aranha, segundo o relato de seu neto, Pedro Aranha Corrêa do Lago, teria sido lembrado pelos integrantes da comitiva do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, quando visitaram o Brasil por ocasião da posse de Jair Bolsonaro, em dezembro de 2018. A menção do nome de Aranha pela comitiva não ocorreu por acaso, visto que, Oswaldo Aranha, foi o presidente da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na sessão em que se decidiu favoravelmente, por meio de votação, a partilha do Estado da Palestina e a criação do Estado de Israel, em 29 de novembro de 1947. A lembrança de uma parte da obra política de Aranha, ainda que por uma representação diplomática estrangeira, chega em momento oportuno. Há aproximadamente dois meses, em julho de 2019, Jair Bolsonaro ventilou a ideia de indicar seu filho, Eduardo Bolsonaro, para o posto de embaixador brasileiro em Washington, cargo que Oswaldo Aranha desempenhou com desenvoltura entre 1934 e 1937. Este ensaio, motivado por estes acontecimentos recentes, tem como objetivo discutir a importância da embaixada do Brasil nos Estados Unidos à luz do exercício diplomático de Oswaldo Aranha enquanto embaixador brasileiro em Washington.

Oswaldo Aranha abre a 1ª Assembleia Especial da Organização das Nações Unidas (ONU), tendo ao seu lado o secretário-geral Trygve Lie. Fonte: O Globo

O papel de Oswaldo Aranha, grosso modo, desde sua nomeação como embaixador do Brasil em Washington, em 1934, até seu pedido de demissão depois do golpe de estado de Getúlio Vargas, em 1937, foi de estrita proximidade com o governo estadunidense de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945). No período em que esteve como embaixador, Aranha defendeu os interesses da soberania brasileira e buscou nas negociações entre Brasil e Estados Unidos uma relação vantajosa para o seu país. O objetivo de Aranha era conciliar, aproximar e harmonizar os interesses da nação brasileira com os da estadunidense. Além disso, o embaixador tinha intenções de reformar a frota militar brasileira com o envio de navios da marinha norte-americana para a costa do Brasil, devido as tensões entre Bolívia e Paraguai pelo controle do Chaco, e obter um empréstimo de 60 milhões de dólares em barras de ouro para a criação de um Banco Central do Brasil. Todos os esforços de Aranha para aproximar Brasil e Estados Unidos exigiram maturidade e astúcia do jovem político e diplomata brasileiro, que atuava pela primeira vez na seara da política internacional. 

Filho de uma tradicional família gaúcha, Oswaldo Euclydes de Souza Aranha nasceu no Alegrete, Rio Grande do Sul, em 1984. Estudou em colégio militar e graduou-se em Direito no Rio de Janeiro. Na capital brasileira, conheceu figuras como Barão do Rio Branco, Afonso Pena, Ruy Barbosa, Alexandrino, personagens que tinham como mensagem, principalmente Ruy Barbosa, o antimilitarismo, a antioligarquia e a exaltação das liberdades civis, tríade que ressonaria no espírito político de Aranha e no desejo de desistir da carreira militar para ingressar na faculdade de Direito (HILTON, 1994, p. 6-7). A influência do pensamento liberal serviu como musculatura para a formação político-ideológica, a consciência social e o inconformismo com a corrupção e privilégios especiais das oligarquias cafeicultoras e militares da segunda década do século XX. Não por acaso, Aranha seria um dos responsáveis pela queda do sistema oligárquico café-com-leite, como um destacado participante da denominada Revolução de 1930. No rugir da Revolução, Aranha relatou a Vargas sobre o cenário político brasileiro: “Chegou a nossa vez […] se não for esta a ‘bolada’, só nos restará o ostracismo federativo, sem mais esperanças de participar do governo desta República” (HILTON, 1994, p. 15). 

Oswaldo Aranha bebe chimarrão em foto de Jean Manzon, no churrasco comemorativo de suas bodas de prata, em 1942.

“Era uma vez um homem e o seu tempo…” A frase do poeta brasileiro Belchior, embora não possa ser amalgamada à trajetória política de Oswaldo Aranha, nos oferece bons insights para pensar os serviços prestados à Nação nos postos ocupados por ele durante os governos de Getúlio Vargas (1930-1945): Ministro da Justiça (1930-31) Ministro da Economia (1931-1934), Embaixador brasileiro em Washington (1934-1937) e Ministro das Relações Exteriores (1938-1944). Cada pasta que Aranha ocupou durante os governos do seu amigo Vargas tem uma particularidade para a política brasileira. A singularidade das suas decisões como ministro da justiça contribuiu para a formação do novo quadro constitucional do Estado brasileiro. Enquanto ministro da economia, Aranha, promoveu a auditoria da dívida externa com o “Esquema Aranha”, que reduziu os pagamentos de 90,7 milhões de libras para 33,6 milhões de libras. 

Se no âmbito doméstico Aranha ocupou Ministérios que exigiram maturidade para resolver os gargalos herdados das crises internacionais e dos governos oligárquicos brasileiros anteriores, faltava ao alegretense encarar a quimera da política internacional. A oportunidade surgiu quando Getúlio Vargas o anunciou, em abril de 1934, como o novo embaixador brasileiro em Washington. Dentre as recomendações do presidente a Oswaldo Aranha estavam a ida a Europa, antes dos Estados Unidos, a negociação com o primeiro-ministro do regime fascista italiano (1922-1943), Benito Mussolini, também conhecido como Il Duce, e a construção de novas relações comerciais e transferência de tecnologia militar entre os dois países. Nos Estados Unidos deveria conhecer o sistema político estadunidense, a estrutura socioeconômica e se aproximar do presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945). 

A viagem à Europa deixou, no embaixador, uma impressão sombria acerca do cenário político no continente. Aranha, que desembarcou em Genova no dia 30 de agosto, com o objetivo de encontrar-se com Mussolini, em Roma, para tratar do acordo comercial Brasil-Itália, não foi recebido pelo primeiro-ministro italiano. Desapontado com o desrespeito de Mussolini, o embaixador embarcou no navio Rex e seguiu sua viagem rumo aos Estados Unidos. Além da Itália, Aranha também fez escala rápida em Barcelona. Embora sua breve estadia na Europa não tenha rendido os frutos esperados, sua percepção sobre a política europeia despertou um agudo senso de observação, marcado pelo pessimismo e pela preocupação, devido o quadro beligerante que os países do continente apresentavam. Aranha chegou em Washington no dia 17 de setembro de 1934, e já no dia seguinte relatou a Getúlio Vargas suas impressões sobre Mussolini e o contexto político da Europa:

[Mussolini é] um César masqué de Napoleão e travesti de Bismark […] O regime fascista é um autorretrato em camisa preta, do bonapartismo […] Mas esses movimentos têm um limite que não é dado ultrapassar […] O fim será um abismo. A Europa esta, meu caro, em estado potencial de guerra. Os exércitos e as esquadras não se defrontam, mas ameaçam-se. Os governos estão num jogo incrível de combinações secretas, de prevenções de toda espécie e de acerbada preparação para o choque. A era é de graves perturbações. Não tenho dúvidas. Prepara-te e ao Brasil para enfrentar uma reviravolta universal (LAGO, 2017, p. 172).

A chegada em Washington foi discreta. Aranha tinha dificuldades em manifestar todo o seu fôlego político e diplomático nas reuniões oficiais, e não dominava a língua inglesa, somente o francês. Outro ponto que Aranha apontava como deficitário, para o início de um bom trabalho, o fato da Embaixada brasileira em Washington não estar pronta para receber jantares e reuniões oficiais. O embaixador acreditava que as acomodações deveriam passar por reformas que denotassem a capacidade econômica e política do Brasil.  À título de curiosidade, a embaixada do Brasil, conhecida como a antiga mansão “Rock of Dumbarton”, havia sido comprada recentemente pelo governo brasileiro por 200 mil dólares, no dia 12 de setembro de 1934. Aranha foi, portanto, o primeiro embaixador a ocupar a embaixada que, possivelmente, venha a ser a nova casa do Eduardo Bolsonaro. As instalações da casa necessitavam de adaptações para que pudesse ser utilizada como sede do governo brasileiro nos Estados Unidos, visto que a maioria dos cômodos eram projetados para reuniões familiares e não para encontros entre delegações internacionais. No processo de transformação da mansão, Aranha escreve a Vargas, em 05 de março de 1935: “Precisamos organizar aqui arquivos e biblioteca com os elementos indispensáveis ao nosso trabalho […] Sem isto é quase impossível fazer obra útil […] Tudo quanto se publica aí [Brasil] deve ser mandado, relatórios, boletins, dados, livros” (HILTON, 1994, p. 195). O interesse de Aranha, com as reformas na embaixada, tinha como projeção estética apresentar às lideranças mundiais, que frequentariam as reuniões no local, as produções artísticas e acadêmicas no Brasil.

Oswaldo Aranha agia com descrição e não esbanjava experiência nas questões relacionadas à política internacional, apesar do conhecimento da história diplomática do Brasil. O novo embaixador também apresentava características que não eram comumente atribuídas à arte diplomática, como a dificuldade em esconder sua emoção nas palavras. Por outro lado, a sua experiência em cenários de conflito e em contextos de tomada de decisão, como foram as negociações da “Revolução de 1930”¹, habilitavam o embaixador a representar os desejos do Estado brasileiro em Washington. Aranha também era seguidor intelectual do Barão do Rio Branco e do Ruy Barbosa, dois personagens da diplomacia brasileira que contribuíram para a definição das linhas gerais da política externa do Brasil nas duas primeiras décadas do século XX. Tanto Rio Branco quanto Ruy Barbosa eram defensores de uma política de aproximação estratégica com os Estados Unidos, que poderia ser vantajosa para o Brasil tendo em vista a superioridade tecnológica e industrial, sobretudo militar, que o Estado estadunidenses detinha no continente americano. Essas bases deixadas pelo Barão e, posteriormente, defendidas por Ruy, ecoariam no perfil do jovem embaixador. Aranha, antes de chegar à embaixada brasileira em Washington, já era partidário do Estado brasileiro manter relações estreitas com o Departamento de Estado norte-americano, e buscaria com o seu perfil negociador e harmonizador uma aproximação vantajosa entre os dois países. 

Devidamente instalada a embaixada brasileira, Oswaldo Aranha iniciou suas estratégias para aproximar-se do governo de Roosevelt. Em termos de preparo intelectual, se dedicou aos estudos da jurisprudência estrangeira. Entre uma leitura e outra, o embaixador, que tinha domínio do vocabulário jurídico, por conta de sua formação como advogado, começou a traçar as familiaridades que os textos constitucionais estadunidenses tinham com os sistemas políticos e administrativos dos outros países latino-americanos (HILTON, 1994, p. 187). Do lado prático, Aranha frequentou feiras internacionais de negócios e inaugurações de grandes obras em algumas cidades nos Estados Unidos. A sua presença nos eventos em que era convidado, como a participação na feira em Chicago, servia para conhecer e aproximar-se da cultura, do dinamismo da economia e da sociedade estadunidense. O evidente entusiasmo do embaixador com as novidades no solo norte-americano foi expresso num telegrama enviado a Vargas no dia 02 de novembro de 1934:

Estive em Chicago quase uma semana. A feira foi visitada este ano por 20 milhões de pessoas, tanto quanto no ano passado e por toda a parte nota-se o mesmo turbilhão humano, bem vestido, forte, apressado e feliz […] É incrível este país […] Neste momento faz-se aqui a maior represa do mundo, Boulder Dam, a maior usina – Muscle Shoals – e a maior ponte a de S[ão]. Francisco, obras colossais que tornam ridícula as 7 maravilhas […] Este país tem mais riquezas do que todo o resto do mundo […] O orçamento de uma cidade como Chicago é maior do que o da Itália. O de Nova York é várias vezes o nosso. O número de automóveis numa cidade média aqui é maior do que o de todo o Brasil! E assim por diante […] Não creias que exagero, nem que estou deslumbrado. Estou vendo e anotando (HILTON, 1994, p. 192).

Além das observações sobre o desenvolvimento das cidades dos estados do leste e do sudeste, que visitou durante a viagem de 45 dias para conhecer a agricultura, as indústrias e a cultura, Aranha lançou olhares sobre os costumes e valores da sociedade estadunidense. Na percepção do embaixador, o Brasil não estava só atrasado industrialmente, em comparação aos norte-americanos, mas também muito distante de ser uma sociedade mais livre e justa. O contraste mais gritante foi a participação da mulher no trabalho e no desenvolvimento econômico do país, o que fica muito claro em um telegrama enviado a Vargas, no dia 25 de novembro de 1935:

Aliás, Getúlio, o convívio com esta civilização mostra uma evidência para a qual temos fechado os olhos e as portas: a eficiência da colaboração da mulher […] O nosso catolicismo – não há um só país católico com grande progresso material – reduziu o campo da atividade feminina por tal forma, pela lei e pelo preconceito, que essa força, complementar da do homem, ficou à margem, inaproveitada […] Ela foi e é parte essencial do progresso e da grandeza americana, em cuja formação teve e tem papel igual ao do homem, quer nas atividades privadas, quer nas públicas, quer na dos negócios em geral […] Creio que, talvez, um dos grandes benefícios da incorporação da mulher à atividade comum dos homens é, justamente, o de destruir o mistério dos falsos pundonores, a hipocrisia da separação dos sexos e essa moléstia psicossexual, feita de impulsos e frenesis, que faz do nosso país, sob a falsa invocação da origem latina e do calor do trópico, o paraíso dos países dos romances e dos dramas amorosos […] O convívio com a mulher no trabalho, no comércio, na indústria e na vida pública destruirá toda essa enfermidade sexual, que faz do brasileiro um bode disfarçado em homem, e do convívio feminino uma simples “cavação” […] (HILTON, 1994, p. 197-198).

Mais adaptado à sociedade estadunidense, era momento de o embaixador arremangar a camisa e negociar com o Departamento de Estado um intercâmbio bilateral entre Brasil e Estados Unidos. É importante lembrar que Aranha, embora sendo um entusiasta das relações entre os dois países, nunca manteve uma aproximação subserviente com o governo do presidente Roosevelt. O empenho do embaixador em firmar acordo econômico com os com norte-americanos tinha como objetivo distanciar o Brasil da Alemanha nazista. Segundo Roberto Gambini, no livro O duplo jogo de Getúlio Vargas, o Estado brasileiro, no ano de 1935, tinha uma agenda econômica mais favorável com a Alemanha nazista do que com os Estados Unidos, tornando o Brasil, no ano de 1936, o maior parceiro econômico da Alemanha no continente americano. As garantias comercias com a Alemanha eram mais interessantes para o Brasil, pois o regime comandado por Hitler havia adotado um programa comercial bilateral com acordos de compensação e fixação de cotas especificas para os produtos brasileiros. O programa comercial entre Estados Unidos e Brasil não oferecia vantagens nos mesmos moldes que o acordo bilateral brasileiro com os nazistas, mas para Aranha o acordo com a Alemanha era um erro, devido a “mão-dura” do regime com o povo alemão e, sobretudo, a barbárie contra o povo judeu.  Da perspectiva do embaixador, a relação Brasil e Alemanha, era como uma “sombra da árvore que não deixa ver os espinhos da floresta” (HILTON, 1994, p. 224). Ou seja, a relação do Brasil com a Alemanha, vista só pela lente comercial, facilmente esconde as atrocidades provocadas pelo Estado nazista. Como Aranha havia respirado o ar do regime fascista de Mussolini, na Itália, o embaixador acreditava que uma relação comercial mais profícua com os Estados Unidos poderia distanciar o Brasil dos governos totalitários da Europa (SEITENFUS, 1985, p. 245). 

Oswaldo Aranha permaneceu como embaixador brasileiro em Washington até o golpe de Estado desferido por Getúlio Vargas, no dia 10 de novembro de 1937. Sua estadia na capital estadunidense, porém, durou mais alguns dias. A pedido de Getúlio, Aranha deveria acalmar as notícias e os comentários sobre o Estado Novo para que as relações entre Estados Unidos e Brasil não fossem fragilizadas. Aranha, no entanto, escreveu a Getúlio no dia 12 de novembro de 1937:

Não me é possível continuar a representar o Brasil, neste país, de forma eficiente, porque nem seu governo, nem seu povo poderão, como anteriormente, acreditar nas minhas informações e afirmações. Pode-se enganar a poucos por muito tempo e a muitos por pouco tempo, mas é absolutamente impossível enganar sempre a todos. Nesta situação que me foi criada, neste país, pelos últimos acontecimentos, a minha permanência não só seria inútil como parece, será prejudicial aos interesses do Brasil. A situação aqui está a exigir, neste momento, um homem novo, identificado com a nova situação e que, por não se ter empenhado perante o Governo, a opinião e a imprensa norte-americana na defesa do regime anterior, possa, com autoridade e com liberdade, desempenhar as funções de embaixador (SEITENFUS, 2003, p. 80).


Capa da revista TIME de 19 de janeiro de 1942 traz a imagem de Aranha com os dizeres “Aranha do Brasil – Ele acredita em decisões rápidas, capital estrangeiro e trabalho árduo”. Fonte: Portal da Força Expedicionária Brasileira.

Aranha chegou ao Brasil, em janeiro de 1938, desiludido com as notas musicais da orquestra fascista do Estado Novo. Foi recebido pelos políticos brasileiros que enxergavam no ex-embaixador a esperança de mudar os rumos da política brasileira, caso aceitasse o pedido de Vargas para assumir o Ministério das Relações Exteriores. Aranha, que a princípio recusara, acaba aceitando o convite de Getúlio desde que as questões internacionais fossem exclusivas do Ministério das Relações Exteriores e os problemas domésticos do Gabinete da Presidência. Seria, portanto, uma adesão negociada. Na visão estratégica de Oswaldo Aranha, a cooperação entre o Brasil e os Estados Unidos deveria ter como objetivo a defesa nacional do Brasil, o financiamento de um programa de desenvolvimento econômico do país, a negociação da dívida externa brasileira, o problema da suspensão do pagamento de juros e iniciativas para a criação de um Banco Central no Brasil, além do reequipamento das Forças Armadas brasileiras (CORSI, 2000, p. 115-139). Aranha não teve um saldo positivo, em termos de acordos bilaterais, com o Departamento de Estado estadunidense durante os três anos em que esteve como embaixador brasileiro em Washington. Mas a aproximação e a credibilidade que conquistou junto aos integrantes do governo de Roosevelt, e do próprio presidente, seriam “gorduras” que Aranha “queimaria”, a favor do Brasil, quando assumisse como ministro das relações exteriores (1938-1942). Na função de chanceler, com maior circulação nos corredores da sede política e militar do Estado brasileiro, o Palácio do Catete, Aranha teve mais espaço para convencer o presidente Getúlio Vargas de que uma cooperação econômica e militar dos governos brasileiro e estadunidense representaria, segundo Aranha, uma continuidade histórica das relações Brasil e Estados Unidos. Vargas, entre 1936-1942, comandou uma política, segundo Gerson Moura, de equidistância pragmática. Dito de outra maneira, Getúlio mantinha relações pendulares, de aproximação e distanciamento, tanto com os Estados Unidos quanto com a Alemanha nazista, colocando-se pragmaticamente no ponto equidistante entre as duas potências. Todavia, a maneira como Vargas jogava com a política pendular, entre Washington e Berlim, negociando secretamente com a Alemanha ao lado dos ministros da guerra, Eurico Gaspar Dutra, e do chefe do estado-maior do exército, Góes Monteiro, era a pedra no sapato de Aranha. Além disso, o Departamento de Estado norte-americano não demonstrava que fecharia o acordo militar e comercial que Aranha havia proposto em 1939. A negociação deste acordo, conhecida como “Missão Aranha”, pretendia a:

1.Obtenção de um crédito de 50 milhões de dólares do tesouro norte-americano a fim de construir um fundo de reserva indispensável à criação de um Banco Central;

2.Promessa de um crédito de 50 milhões de dólares do Banco Export-Import para facilitar a implementação de uma indústria de base no país. Essa promessa de crédito deve tornar-se efetiva em curto prazo e será reembolsada em um prazo de 5 a 10 anos, a uma taxa de juros de que não ultrapassa 5% ao ano;

3.Promessa por parte do governo norte-americano de facilitar e incentivar a constituição de empresas conjuntas brasileiro-americanas, com capital dos dois países, a fim de desenvolver a produção de matérias-primas, bem como a exploração e comercialização da indústria extrativa brasileira (SEITENFUS, 1985, p. 243).

O acordo de cooperação econômica e militar dos Estados Unidos com o Brasil só aconteceu depois do ataque japonês a Pearl Harbor, no Hawaí, no dia 7 de dezembro de 1941. O Departamento de Estado norte-americano solicitou ao Estado brasileiro a construção de bases aéreas, campos de pousos e patrulhamento na região nordeste, em vista da facilidade dos navios e aviões estadunidense de operar no Atlântico Sul. Oswaldo Aranha solicitou, agora com êxito, ao governo estadunidense o empréstimo de 120 milhões de dólares com objetivo de comprar materiais e equipamentos para a construção da usina siderúrgica. Aranha ainda seria escolhido, pelo governo norte-americano, como presidente da Conferência Consultiva das Repúblicas Americanas que aconteceria no Rio de Janeiro, no dia 15 de janeiro de 1942. Na pauta da Conferência estavam a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra-Mundial e a votação da “Solidariedade Continental” dos países americanos com os Aliados. A última sessão da Conferência, no dia 28 de janeiro, após duas semanas de extensivos debates entre os ministros das Relações Exteriores americanos, definiu a posição de solidariedade continental dos países americanos aos Estados Unidos na guerra. Ao final do último discurso, Oswaldo Aranha, como presidente da Conferência, iniciou o seu pronunciamento:

O Brasil, meus senhores, em toda a sua História sempre teve como decisivo o valor das palavras. Recebemos de nossos antepassados esse patrimônio moral incomparável e o defenderemos com todas as nossas forças […] Esta é a razão pela qual, hoje, às 18 horas, através da ordem do Sr. Presidente da República, os embaixadores do Brasil em Berlin e Tóquio, e o encarregado dos negócios do Brasil em Roma, passaram nota aos governos junto aos quais estão acreditados, comunicando que, em virtude das recomendações da II Reunião dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, o Brasil rompia suas relações diplomáticas e comercias com a Alemanha, o Japão e a Itália (HILTON, 1994, p. 388).


Oswaldo Aranha lê a declaração final da Conferência dos Chanceleres, 1942. Fonte: Portal da Força Expedicionária Brasileira.

O chanceler brasileiro permaneceu na pasta até agosto de 1944, quando Getúlio Vargas, arbitrariamente, decidiu fechar a Sociedade dos Amigos da América, da qual Aranha era vice-presidente. A Sociedade, fundada em janeiro de 1943, tinha como escopo fazer críticas ao totalitarismo empregado pelo Estado Novo e defender a posição brasileira de apoio aos aliados na guerra. O autoritarismo, e a perda da liberdade de expressão, eram inegociáveis para Aranha, que não tolerava medidas antidemocráticas. Por conta do poder de polícia do Estado varguista, Aranha entregou o seu pedido de demissão do cargo de ministro das Relações Exteriores. Todavia, deixou claro que: “Afastei-me do Itamaraty, mas não me afastei do Brasil” (HILTON, 1994, p. 427). A frase tomou a devida materialidade quando, Oswaldo Aranha, no governo de Eurico Gaspar Dutra (1945-1950), seria nomeado como representante do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU). Nesta ocasião, foi presidente da Assembleia Geral que resultou na partilha do Estado da Palestina e criação, consequentemente, do Estado de Israel. No segundo governo Vargas (1951-1954), Oswaldo Aranha aceitou o pedido do amigo para ocupar a pasta do ministério da fazenda, saindo após o suicídio do presidente. O último capítulo da caminhada política de Oswaldo Aranha foi como representante do Brasil na ONU (1957), no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Aranha faleceu no dia 27 de janeiro de 1960, no Rio de Janeiro, aos 65 anos de idade.

¹ A Revolução de 1930 foi um movimento de ruptura com a política oligárquica do café-com-leite. Os revolucionários, como Oswaldo Aranha, Getúlio Vargas, Nilo Peçanha, Borges de Medeiros, dentre outros, tinham como mensagem derrotar o indicado à presidência do Brasil, Júlio Prestes, que era do estado de São Paulo. A derrocada do sistema da República Velha, acontece quando os revolucionários convencem o estado de Minas Gerais a não apoiar o candidato que viria de São Paulo nas eleições de 1930, devido o descumprimento, por parte dos paulistas, da política de alternância presidencial entre os dois estados. Oswaldo Aranha, segundo o brasilianista Joseph Love (1971, p. 219), teria sido o “arquiteto” desse movimento que culminou na derrocada da oligárquica política do café-com-leite e deu início ao que se convencionou chamar de a Era Vargas (1930-1945; 1950-1954).


Referências:

Assinatura do Acordo Comercial Brasil-Estados Unidos. Disponível aqui. Acesso em 22 de jul de 2019.

Capa da revista TIME de 19 de janeiro de 1942. Disponível aqui. acesso em 22 de jul de 2019.

CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da Política Externa do Brasil. Brasília: Unb, 2002.

CORSI, Francisco Luiz. Estado Novo: política externa e projeto nacional. São Paulo: UNESP, 2000.

GAMBINI, Roberto. O Duplo Jogo de Getúlio Vargas: influência americana e alemã no Estado Novo. São Paulo: Símbolo, 1977.

HILTON, Stanley. Oswaldo Aranha: uma biografia. Rio de Janeiro: objetiva, 1994.

LAGO, Pedro. Oswaldo Aranha: uma fotobiografia. Rio de Janeiro: Capivara, 2017.

LOVE, Joseph. Rio Grande do Sul and Brazilian Regionalism, 1882-1930. Stanford, CA: Standford University Press, 1971, p. 219.

Oswaldo Aranha abre a 1ª Assembleia Especial. Disponível aqui. Acesso em 22 de jul de 2019.

Oswaldo Aranha bebe chimarrão em foto de Jean Manzon, no churrasco comemorativo de suas bodas de prata, em 1942. Disponível aqui. acesso em 22 de jul de 2019.

Oswaldo Aranha lê a declaração final da Conferência dos Chanceleres, 1942. Disponível aqui. Acesso em 22 de jul de 2019.

SEITENFUS, Ricardo. O Brasil de Getúlio Vargas e a Formação dos Blocos, 1930-1942: o processo do envolvimento brasileiro na II Guerra Mundial. São Paulo: Nacional; Brasília: Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

______. O Brasil vai à Guerra: o processo do envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. Barueri, São Paulo: Manole, 2003.

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